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A floresta é o ingrediente de renovação do café brasileiro

Novas regiões de destaque no cenário nacional têm em comum o cultivo ao redor e em meio à mata. A experiência ocorre em estados onde a cultura parece inusitada, como Rondônia e Ceará.


Thais Sousa

tsousa@anba.com.br


Belo Horizonte – A cafeicultura brasileira é conhecida por seu gigantesco volume. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) prevê 49 milhões de sacas de café só este ano. Mas as prioridades estão mudando e, no lugar do tamanho, a qualidade tem subido na lista. Nessa busca, produtores de regiões inusitadas têm um ponto em comum: o cultivo com técnicas agroflorestais.


Foi assim que produtores do Ceará, um estado mais conhecido por suas praias do que por lavouras, recomeçaram sua história com o grão. Lá, as plantas crescem sombreadas pela mata desde o início do século 19. “O café chegou ao Ceará antes de chegar ao Sudeste”, conta Francisco Uchôa (foto acima), do Sítio Águas Finas, região do Maciço do Baturité, em entrevista à ANBA durante a Semana Internacional do Café (SIC).


No estado onde a cultura foi implantada logo no início de sua chegada ao Brasil, o café passou o último século à própria sorte crescendo na Mata Atlântica, mas há quatro anos foi criada a Associação dos Cafeicultores da Serra do Baturité (Afloracafé). “A gente se uniu em 2016, aqui na feira (SIC), e no retorno já fundamos a associação. A intenção é conseguir trazer tecnologias para a nossa região, que tem uma produtividade muito baixa. Temos uma qualidade boa no pé, mas estávamos tendo problema de processamento e armazenagem”, conta Frederico Yan, que cultiva em seu Sítio Bom Princípio e é presidente da Afloracafé.


Se por um lado a solução foi modernizar processos com capacitação, novas variedades, irrigação e nutrição, por outro, a decisão foi respeitar técnicas ancestrais. “Nós estamos plantando da mesma forma que se cultivava antigamente em relação ao respeito à natureza, manter as árvores e o sombreamento, porque é isso que garante a qualidade. Nosso custo é muito alto porque não queremos meter um trator lá e plantar. Qual o nosso objetivo? Produzir trazendo o mínimo de impacto ao meio ambiente”, explica Yan.


Para ele, a iniciativa é também a oportunidade de desenvolver a economia da região. “Nosso intuito é produzir um bom café e ter retorno econômico para estimular os outros produtores a não abandonar a cultura. A maioria está indo para cultivo de frutíferas e arrancando o café que chegou lá em 1900”, enfatiza.


Muitas árvores nativas, com até 1,5 metro de diâmetro e 20 metros de altura, fornecem sombra das copas e nutrição de matéria orgânica para o café. São cedros, pau d’arcos, gameleiras e a ingazeira. “É o pólen do ingá que atrai uma vespa predadora da broca-do-café, uma das principais pragas da cultura”, conta Uchôa, um dos 16 agricultores associados.


Para manter o Sítio Águas Finas sustentável, Uchôa investiu em turismo rural, com uma pousada e trilhas para os mais aventureiros. “Mas sempre digo que o café (com avaliação) de 90 pontos é o foco do trabalho. Temos múltiplas floradas e, como os frutos vão ficando maduros aos poucos, nós colhemos seletivamente”, diz o produtor. A avaliação de que Uchôa fala é feita por provadores profissionais e cafés acima de 80 pontos são considerados especiais.


“Estamos conseguindo produzir cafés bons. Já em 2016, a maioria dos que tiveram o mínimo de cuidado se classificaram como especiais”, explica Yan. A maioria das propriedades tem de 15 a 25 hectares, e querem seu café – quase todo orgânico – chegando diretamente ao mercado. O trabalho está bem encaminhado, todos os produtores possuem a sua própria marca de grão torrado.


Café indígena

Em outro bioma brasileiro, árvores nativas também têm espaço. Em Rondônia, numa região próxima ao município de Cacoal, em plena floresta amazônica, indígenas do povo Paiter Suruí cultivam café da espécie canéfora, conhecida popularmente como robusta. A cultura foi levada à Terra Indígena Sete de Setembro durante uma invasão. “A grande maioria do café foi deixado no território depois da desintrusão [processo de retirada dos invasores], nos anos 1980”, explica o coordenador regional da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Cacoal, Paulo Ricardo Souza Prado.

No local, há 140 famílias vivendo em 27 aldeias. Entre os 2 mil indígenas, está Wilson Nakodah Suruí, que teve seu café entre os cinco melhores da espécie no prêmio oferecido pela SIC, o Coffee of The Year 2019. “Eu achei muito bom! Qualquer um do meu povo, mesmo que não seja eu, torço que seja campeão!”, comemora Nakodah.

Foi a persistência que o tornou o primeiro indígena a chegar à final do prêmio. Em 1982, Nakodah começou a cuidar do café e plantar mais pés, mas a desvalorização da cultura desanimou o agricultor. “O preço ficou muito baixo. Eram 15 ou 20 reais a saca, eu parei de plantar por um tempo”, conta. Em 2013, quando descobriu variedades locais, os chamados “cafés clonais”, Seu Wilson voltou a tentar o cultivo. “Nós vimos o ‘café clonal’ pela internet”, explicou ele, que também produz pupunha, castanha e banana.

“No entorno das lavouras, são áreas de capoeira e mata. É uma produção sustentável. Quando começou a ênfase para o café, diminuiu o desmatamento. Esse ano, que teve valorização do café, o desmatamento foi praticamente zero”, destaca o coordenador da Funai.


Algumas plantações têm consórcio com castanheira, banana, cupuaçu e cacau, e até com madeira de lei. O povo Suruí produziu cerca de 1300 sacas de café em 2019. “Todo café é produzido com qualidade. E essa é a visão. O povo Suruí firmou um contrato com a [marca] 3 Corações, ela financiou terreiro suspenso, ferramentas para firmar qualidade pós-colheita e garantiu preço mais vantajoso que o praticado no mercado”, afirma o coordenador. A 3 Corações é líder nacional no mercado café torrado e moído, e a proposta de compra dos grãos indígenas inclui criar uma marca exclusiva para eles. Nakodah acredita que o terreiro melhorou a qualidade do café. O fruto colhido foi lavado, passou por fermentação por 20 dias e, por fim, secou no terreiro bancado pela companhia. “Os três cafés de Rondônia que chegaram à final do prêmio têm perfis diferentes. São robustas amazônicos fermentados. O café do Suruí é uma iguaria amazônica, é muito frutado, tem 88 pontos”, diz Janderson Dalazen, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em Rondônia e um dos únicos provadores especializados em cafés da espécie canéfora do Brasil, o chamado Q-Robusta Grader.


Perto dali, no município de Alto Alegre dos Parecis, veio outro café finalista, o de Nilton Marques de Lima. Ele começou a produzir com qualidade em 2016 e, em comum com os indígenas, tem o fato de não gostar de aplicar produtos químicos. “Plantamos até o café ter quatro anos, só com produtos naturais e biológicos para combater a broca”, revela. É com o material orgânico que ele recolhe na mata da propriedade que cria o fungo beauveria, “remédio” contra pragas do cafeeiro.


O novo fôlego que a atividade ganha no estado é motivado pelo Projeto Cafeicultura de Rondônia, criado por entidades como o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresa (Sebrae) e a Embrapa junto com o governo estadual. A iniciativa leva os produtores a provas de café, capacitações e apresenta novas tecnologias, como uma caixa para fazer fermentação controlada dos grãos. “Esse trabalho tem estimulado muito os produtores que produzem cafés de qualidade. Rondônia está tendo uma transformação na forma de entender o que é café. Passando de commodity para o café especial”, conclui Dalazen.


Agricultura sintrópica

Longe dali, no Pico da Bandeira, terceiro mais alto do Brasil, em Minas Gerais, Willians Valério e sua família decidiram cultivar grãos de café. Há 22 anos, e a uma altitude de 1.500 metros, eles fundaram o Sítio Recanto dos Tucanos. Mas foi só há quatro anos que a chamada “agricultura sintrópica” ganhou espaço na propriedade. “Eu descobri que o cara que faz essa agricultura tem um dos melhores cacaus do mundo. É um suíço, que mora e cultiva na Bahia. E ele produz três vezes mais que o [cacaueiro] convencional”, explica Valério, que desde então se dedicou a fazer cursos com pessoas relacionadas ao precursor do sistema.


Mas o que é agricultura sintrópica? “É a forma que manejamos que é diferente. Plantamos uma floresta inteira. Todos os estágios. Tem planta que nasce mais rápido para puxar outras e nós replicamos isso na agricultura. Costumamos plantar feijão, que se colhe com 60 dias, depois milho, depois banana, depois café. Vamos desenhando o sistema”, descreve o produtor.


Com o cafezal, Valério combina cultivos como a banana, goiaba, pêssego, abóbora, além de hortaliças. “As folhas do pêssego, por exemplo, caem totalmente no inverno e, por isso, bate sol no café. Também tem o caqui, que tem poda natural e deixa entrar 100% de luz”, explica Valério.


Foi com esse ritmo natural que ele se sagrou campeão do concurso Coffee of the Year para espécie arábica deste ano. O cuidado fica claro nos detalhes da produção dos frutos, uma mescla das variedades catuaí vermelho e amarelo, colhidos maduros um a um, lavados e secos em terreiro suspenso por 25 dias.

A produção é feita pela família de Valério, trabalhadores locais, voluntários e um sócio. “Este ano produzimos 15 sacas de café e ainda estamos colhendo. Temos bastante área nova e, a partir do ano que vem, vai produzir. Toda nossa área é sintrópica, só plantamos sistemas de agrofloresta”, garante.

Entre as plantas nativas que complementam o sistema estão a assa-peixe, a umbaúba, a canela, a capoeira-branca e o picão. “São nativas e se transformam em amigas, como a jaboticaba. Fora as que a gente traz de fora, como o pêssego e a azeitona”, conta ele, que já organiza seu próprio curso sobre a técnica.


Mas antes chegar à celebração, os mineiros passaram por momentos de desespero. Em setembro, parte da propriedade foi consumida pelas chamas do incêndio que atingiu o Parque do Caparaó. “Chegamos e vi aquele fogo, coisa que nunca vi na minha vida. Subimos e estava pior do que imaginamos. Já tinham pessoas que estavam quase morrendo, gente fugindo. Conseguimos conter o fogo no rio”, lembra o produtor.


O incêndio chegou a atingir o Sítio Recanto dos Tucanos, mas graças ao manejo feito para deixar matéria orgânica apenas no solo, as chamas se mantiveram baixas. “Dentro do Parque, onde não era manejado e a matéria orgânica estava alta, não teve como conter. Teve lugares onde tentamos e a gente quase morreu. Foi bem crítico. Graças a Deus conseguimos vencer isso e mostrar que uma agricultura sem fogo e sem veneno, pode ser muito mais benéfica para todo mundo. E ter uma qualidade melhor. Que a galera faça agricultura sem fogo e sem veneno. Agricultura sintrópica!”, incentiva o cafeicultor.


*A jornalista viajou a convite da organização da Semana Internacional do Café

ANBA - Agência de Notícias Brasil-Árabe



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